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“Comorbidade” é uma palavra tão nova no vocabulário do brasileiro quanto coronavírus e pandemia.

30 de junho de 2020
em Sem categoria
Tempo de leitura: 2 mins para ler
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Comorbidade é uma palavra tão nova no vocabulário do brasileiro quanto coronavírus e pandemia. Mal usada e abusada, virou justificativa para os óbitos. “Morreu de covid. Mas tinha comorbidades”. Como se as pessoas que têm doenças preexistentes já tivessem um passe-livre para a morte.

O substantivo tem sido usado com frequência por aqueles que desdenham da morte. Os que não acreditam na gravidade da pandemia, ou que se sentem ungidos pela imunidade.

Comorbidade também é um recurso narrativo fácil de ser usado pelos órgãos de governo, que têm a missão espinhosa de relatar o número de mortos, dia após dia. Os relatórios vêm assim: homem ou mulher, tantos anos, tinha comorbidades. As doenças preexistentes viraram a última fronteira no jogo de empurra-empurra das responsabilidades.

No dicionário, comorbidade significa a associação entre duas ou mais doenças simultâneas. Como hipertensão e diabetes, por exemplo. Quantas pessoas você conhece nessa condição? E quantas estão nesse grupo, mas não sabem?

Vamos ficar nesses dois exemplos, porque eles estão entre as doenças mais comuns a facilitar quadros graves de covid-19. Pelos menos 12 milhões de brasileiros são diabéticos, segundo a Sociedade Brasileira de Diabetes. Hipertensos somam 47 milhões, segundo a Sociedade Brasileira de Cardiologia. E quase 20% não estão diagnosticados.

Pense nas pessoas com quem você convive. Ou na sua condição de saúde, talvez. Ter doenças crônicas como essas não é uma sentença de morte. Pessoas vivem bem e em paz com as tais comorbidades. Criam os filhos, veem crescer os netos, realizam sonhos e projetos.

O novo coronavírus abreviou a vida de milhares de brasileiros que, embora convivessem com um problema crônico de saúde, teriam pela frente uma vida plena e feliz. Escorar-se nas comorbidades para justificar as mortes causadas pela covid-19 é como supor que elas não pudessem ser evitadas.

Para cada vítima da pandemia, com ou sem comorbidades, há um rastro do egoísmo daqueles que não tomaram os cuidados necessários para evitar disseminar o coronavírus. Do negacionismo perverso, que expõe as pessoas aos riscos. Nossa doença crônica é a falta de empatia.

Por Dagmara Spautz

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