1° de maio de 1994, um dos dias mais tristes na história do Brasil; Senna é considerado por pessoas de diferentes idades, credos e até gostos por esporte como o maior ídolo da história do país
O 1º de maio de 1994 foi um dia tão intensamente triste no Brasil que muitos que o vivenciaram se lembram exatamente onde e com quem estavam quando souberam da morte daquele que é considerado por pessoas de diferentes idades, credos e até gostos por esporte como o maior ídolo da história do país.
Foi naquele domingo que morreu o tricampeão mundial de Fórmula 1 Ayrton Senna da Silva, poucas horas depois de sofrer um acidente com sua Williams na curva Tamburello, no circuito de Ímola, na sétima volta do Grande Prêmio de San Marino.
A rotina dos inúmeros fãs do piloto e da Fórmula 1 aos domingos de corrida incluía acordar cedo, pois, na época, a grande maioria das provas era disputada pela manhã. Há 26 anos, contudo, a voz do narrador Galvão Bueno, da “TV Globo”, alertou para o início de uma série de acontecimentos dramáticos.
“Senna bateu forte!”, exclamou a voz das principais conquistas de Ayrton.
O brasileiro liderava em San Marino, que sediava a terceira etapa da temporada, e buscava os primeiros pontos no Mundial, após abandonos nos GPs do Brasil e do Pacífico. O alemão Michael Schumacher, então na Benneton, o perseguia, quando Senna passou direto na fatídica Tamburello, atravessou a área de escape e se chocou com o muro de proteção a mais de 200 km/h.
Dois dias antes do acidente, Rubens Barrichello, então na Jordan, já havia sofrido acidente impressionante em Ímola em um dos treinos livres. No sábado, foi a vez do austríaco Roland Ratzemberger, da Simtek, bater forte e morrer na sessão classificatória.
Antes da corrida, em que largou pela 65ª e última vez como pole position, Senna criticou a pista e foi um dos que denunciou a falta de seguranças para os pilotos.
A quebra da barra de direção do carro, conforme ficou provado após uma longa investigação, foi o que fez o tricampeão sair da pista, já que ele tentou frear ao perceber problemas.
Eram 14h13 em Ímola, 9h13 no horário de Brasília. Senna só começou a receber atendimento médico dois minutos e meio depois da colisão. A transferência para um hospital, em um helicóptero, aconteceu 17 minutos depois.
Com o impacto, uma peça da suspensão dianteira saiu como uma bala de revólver contra o capacete do piloto da Williams, provocando danos cerebrais. Horas depois, às 18h40 locais, 13h40 de Brasília, o o coração de Senna parou de bater definitivamente.
“Neste momento, a médica María Teresa Fiandri comunica a todos os jornalistas aqui do hospital Maggiore, de Bolonha, que Ayrton Senna da Silva está morto. Morreu Ayrton Senna da Silva. É o comunicado oficial do hospital Maggiore, de Bolonha. Morreu Ayrton Senna da Silva.
Uma notícia que a gente nunca gostaria de dar”, relatou Roberto Cabrini, em plantão na “TV Globo”, emissora que detém até hoje os direitos de transmissão da Fórmula 1 no Brasil.
O próprio repórter, durante o anúncio via telefone, não conseguiu esconder a voz embargada, diante da informação trágica. O sentimento tomou conta, primeiro, dos telespectadores, para depois se estender por toda a nação, em choque pela perda do ídolo, que ostentava a bandeira nacional a cada vitória.
Bianca Senna, sobrinha do piloto e atualmente diretora da marca no Instituto Ayrton Senna, é uma das encarregadas de manter o legado do tio vivo. A fundação era um sonho do piloto, que foi colocado em prática após a tragédia, com o objetivo de melhorar a educação no Brasil, o que revela um pouco de quem ele era.
“Foi mais do que um piloto. Se só tivesse sido um piloto, não teria conquistado o coração de tantas pessoas no mundo. Ele lutou muito para conseguir o que conseguiu, e não foi fácil. As pessoas se identificam com isso”, afirmou Bianca em entrevista à Agência Efe.
Quando Ayrton foi campeão mundial pela primeira vez, em 1988, a sobrinha era apenas uma criança. Hoje, ela admite que acompanhava apenas as largadas das corridas: “eu sabia que ele iria ganhar”, brinca.
Bianca contou à Efe as lembranças que mantêm do tio longe das pistas, no convívio em casa.
“Era muito diferente. Ele era muito carinho, muito brincalhão. Amoroso e muito querido”, disse.
No dia 1º de maio de 1994, Bianca estava na casa de uma amiga e começou a ver a corrida. Depois do acidente, foi diretamente para casa, onde acompanhou a cobertura da imprensa e recebeu as notícias junto com o restante da família.
O choque do país foi total e continuou intacto no dia seguinte, quando os principais jornais publicaram a tragédia em suas capas.
“Acidente mata Ayrton Senna”, estampou a “Folha de S. Paulo”. Já “O Globo” informou: “Brasil perde Senna”. O “Estado de S. Paulo, por sua vez, foi mais profundo: “Morte de Senna abala País e causa indignação com segurança na F-1”.
Dias depois, conforme veiculou a “Folha”, uma jovem se suicidou em Curitiba. Em um bilhete de despedida, ela garantia que se encontraria com o tricampeão mundial.
A morte de Senna, em um domingo de clássicos no futebol brasileiro, ainda aproximou arquirrivais, como os torcedores de Flamengo e Vasco, no Rio de Janeiro; Palmeiras e São Paulo, na capital paulista; e Atlético e Cruzeiro, em Minas Gerais, que saudaram o piloto das arquibancadas.
O então presidente do Brasil, Itamar Franco, decretou luto de três dias, período em que a nação parecia não pensar em outra coisa. Na mídia, nas ruas, Senna era o principal assunto. Nas janelas, tecidos negros simbolizavam o luto.
Fãs se dirigiram até a residência da família do tricampeão, em São Paulo, e lá fizeram uma vigília.
O corpo de Senna chegou ao Brasil na quarta-feira seguinte ao acidente e foi recebido com honras de chefe de Estado. O velório aconteceu na Assembleia Legislativa paulista.
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